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28 de dezembro de 2010

Por que não sou cristão

Por que não sou cristão, por Bertrand Russell.


Sobre Bertrand Russel, em seu livro WHI I AM NOT A CHRISTIAN -
Porque não sou Cristão, é considerado um dos mais blasfemos documentos filosóficos jamais escritos. Se a religião fornece respostas às perguntas que sempre atormentaram a humanidade - por que estamos aqui, qual a razão da vida, como devemos nos comportar. Russel dissipa esse conforto, deixando-nos com alternativas mais perturbadoras: responsabilidade, autonomia e consciência do que fazemos. Coloca questões que nunca mais poderão ser ignoradas.

Esta palestra foi proferida no dia 6 de março de 1927, na Prefeitura
de Battersea, sob o patrocínio da divisão da zona sul de Londres da
Sociedade Laica Nacional (National Secular Society)..

Como o Presidente desta sociedade já lhes disse, o assunto sobre o qual falarei hoje à noite é “Por que não sou cristão”. Talvez seja melhor, também, para começar, tentar definir o que quero dizer com a palavra “cristão”. É ela usada, hoje em dia, num sentido bastante vago, por um grande número de pessoas, num sentido muito impreciso. Algumas delas só a utilizam para descrever alguém que tenta viver bem. Nesse sentido, acredito que haveria cristãos em todas as seitas e credos; mas não creio que esse seja o sentido adequado da palavra, ainda que apenas por implicar que todas as pessoas que não são cristãs – todos os budistas, confucionistas, maometanos e assim por diante – não tentam viver bem. Quando digo cristão, não quero dizer qualquer pessoa que tente viver de maneira decente de acordo com sua razão.
Penso que é preciso ter uma certa quantidade de crença definida
antes que se adquira o direito de se autodenominar cristão. Essa palavra
não tem um significado tão puro hoje quanto tinha na época de
Santo Agostinho ou de Santo Tomás de Aquino. Naquele tempo, se
um homem afirmasse ser cristão, já se sabia o que ele queria dizer:
ele aceitava. Aceitava todo um conjunto de credos, definidos com
muita precisão, e acreditava em cada sílaba daquilo com toda a força
das suas convicções.

O que é um cristão?

Hoje, a coisa não é bem assim. Quando falamos em cristianismo,
precisamos ser um pouco mais vagos quanto a seu significado. Penso,
no entanto, que existem dois itens distintos e bastante essenciais para
quem se autodenomina cristão. O primeiro é de natureza dogmática
– especificamente, que é necessário acreditar em Deus e na imortalidade.
Se não acreditar nessas duas coisas, penso que ninguém poderá
chamar-se, apropriadamente, cristão. Mais do que isso, como
o próprio nome implica, é necessário ter algum tipo de crença em relação
a Cristo. Os maometanos, por exemplo, também acreditam em
Deus e na imortalidade e, no entanto, não se autodenominam cristãos.
Penso que é necessário ter, no mínimo, a crença de que Cristo foi, se
não divino, o melhor e mais sábio dos homens. Se uma pessoa não
estiver disposta a acreditar nem nisso a respeito de Cristo, penso que
não tem o direito de se autodenominar cristão., fetichistas e assim
por diante; nesse sentido, somos todos cristãos. Logo, presumo que,
quando digo porque não sou cristão, devo dizer duas coisas distintas:
primeiro, por que não acredito em Deus e na imortalidade; e, segundo,
por que não penso que Cristo foi o melhor e mais sábio dos homens,
apesar de atribuir a Ele um alto grau de bondade moral.
Como já disse, antigamente o sentido da palavra era muito mais puro.
Por exemplo, deduzia a crença no inferno. A crença no fogo eterno do
inferno era item essencial da crença cristã até pouquíssimo tempo atrás.
Neste país, como vocês sabem, isso deixou de ser item essencial ...
e o inferno deixou de ser necessário aos cristãos. Em conseqüência,
não devo insistir na obrigatoriedade da crença no inferno para ser um
ristão.

A existência de Deus

Para abordar a questão da existência de Deus, que é uma questão
ampla e séria, pedirei licença para tratar dela de maneira um tanto
resumida – se eu fosse tentar abordá-la de qualquer maneira adequada,
precisaria mantê-los aqui até o Final dos Tempos. Os senhores
sabem, é claro, que a Igreja Católica definiu como dogma o fato
de a existência de Deus poder ser provada pela razão espontânea sem ajuda da razão.
Esse é um dogma um tanto curioso, mas é um dos dogmas deles.
Precisaram introduzí-lo porque, a certa altura, os livres-pensadores
adotaram o hábito de dizer que existiam tais e tais argumentos por
meio dos quais a pura e simples razão poderia concluir que Deus
não existe, mas é claro que eles sabiam, por questão de fé, que Deus
existe. Esses argumentos e razões foram expostos muito longamente,
e a Igreja Católica sentiu a necessidade de dar um basta nisso. Assim,
estabeleceram que a existência de Deus pode ser comprovada pela
razão espontânea, e precisaram determinar o que consideravam
argumentos para comprovar tal fato. Existem, é claro, diversos deles,
mas abordarei apenas alguns.

O argumento da Causa Primeira

Talvez o mais simples e mais fácil de entender seja o argumento da
Causa Primeira. (Defende-se que tudo o que vemos neste mundo
tem uma causa e, à medida que retrocedermos cada vez mais na corrente
de causas, chegaremos e essa Causa Primeira recebe o nome de Deus.)
Tal argumento, suponho, não tem muito peso nos dias de hoje,
porque, em primeiro lugar, já não é mais o que era. Os filósofos e os
homens de ciência têm estudado muito a causa, e ela já não tem nem
de longe a vitalidade que tinha; mas, fora isso, dá para ver que o
argumento de que obrigatoriamente existe uma Causa Primeira não
pode ter nenhuma validade. Posso dizer que, quando eu era jovem e
debatia essas questões com muita seriedade em minha mente, durante
muito tempo aceitei o argumento da Causa Primeira, até o dia
em que, aos dezoito anos, li a autobiografia de John Stuart Mill e
lá encontrei a seguinte frase: “Meu pai me ensinou que a pergunta
‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que imediatamente
sugere a pergunta seguinte ‘Quem fez Deus?.” Essa frase extremamente
simples me mostrou, como ainda penso, que o argumento da
Causa Primeira é uma falácia. Se tudo precisa ter uma causa, então
também Deus deve ter uma causa. Se é possível que exista qualquer
coisa sem causa, isso tanto pode ser o mundo quanto Deus,
de modo que não pode haver validação nesse argumento.
Não há razão. De modo algum, por que o mundo não possa ter
passado a existir sem uma causa; tampouco, por outro lado tampouco,
existe qualquer razão que o impeça de ter sempre existido.
Não há razão para supor que o mundo teve alguma espécie de
início. A idéia de que as coisas precisam obrigatoriamente ter um
início na verdade se deve à pobreza da nossa imaginação. Portanto,
talvez eu não precise mais perder tempo com o argumento relativo
à Causa Primeira.

O Argumento da Lei Natural

Em seguida, há o argumento muito comum da lei natural. Esse foi
um dos argumentos preferidos ao longo de todo o século XVIII,
principalmente sob a influência de sir Isaac Newton e de sua cosmogonia.
As pessoas observavam os planetas girando em torno do
sol de acordo com a lei da gravidade, e pensavam que Deus tinha
dado um comando a esses planetas para que se movessem daquela
maneira particular, sendo por isso eles assim o faziam. Essa era,
obviamente, uma explicação conveniente e simples, que as poupava do
trabalho de ter de procurar novas explicações mais elaboradas para a lei
da gravidade. Hoje, explicamos a lei da gravidade de uma maneira
um tanto complicada, introduzida por Einstein. Não me proponho a
fazer uma palestra a respeito da interpretação de Einstein para a lei
da gravidade, porque, mais uma vez, isso demoraria algum tempo;
de qualquer forma, já não dispomos mais daquele tipo de lei natural
que existia no sistema newtoniano, onde, por alguma razão que
ninguém era capaz de entender, a natureza agia de maneira uniforme.

Hoje, descobrimos que muitas coisas que acreditávamos serem
leis naturais na verdade são convenções humanas...

Existe, como todos sabemos,uma lei que diz que, ao lançarmos
dados, obteremos dois seis duplo uma vez a cada 36 vezes lances
aproximadamente, e não consideramos isso como prova de que a
queda dos dados é regulada pelo plano divino; ao contrário, se o
dois seis saísse toda vez, poderíamos pensar que o plano divino
existe. As leis da natureza são desse tipo no que diz respeito à maior
parte delas. São médias estatísticas tais como as que emergiriam das
leis do acaso; e isso faz com que essa coisa toda de lei natural seja
muito menos impressionante do que era anteriormente. Bem separado
disso, representa o estado momentâneo da ciência que pode
transformar o amanhã, toda a idéia de que as leis naturais implicam
um determinador das leis se deve à confusão entre as leis naturais e
as humanas. As leis humanas são comandos que ordenam que se aja
de uma certa maneira indicada, de modo que cada um possa escolher se
comportar ou não se comportar; mas as leis naturais são uma descrição
de como as coisas de fato se comportam e, por serem uma mera
descrição do que elas de fato fazem e, não dá para argumentar que existe
obrigatoriamente alguém que lhes disse para fazer isso, porque,
mesmo se supusermos que existe, então a seguinte questão seria suscitada:
“Por que Deus estabeleceu exatamente estas leis naturais, e não outras?”.
Se a resposta for que Ele fez isso apenas a seu bel-prazer, e sem razão
nenhuma, então descobre-se que existe alguma coisa que não está sujeita
à lei, de modo que a linha da lei natural é interrompida. Se for dito, como os
teólogos mais ortodoxos dizem, que em todas as leis estabelecidas
por Deus existe uma razão para que determinada lei fosse promulgada
em detrimento de outras – tendo como razão, é claro, criar o
melhor universo, apesar de ser impossível pensar assim ao examiná-lo –,
se houvesse uma razão para as leis que Deus estabeleceu,
então o próprio Deus estaria sujeito à lei, de modo que não existe
nenhuma vantagem em introduzir Deus como intermediário.
Na verdade, tem-se uma lei alheia e anterior aos éditos divinos, e
Deus não atende ao objetivo, porque Ele não é o legislador supremo.

Em resumo, toda essa discussão a respeito da lei natural não tem mais
nem de longe a força que tinha antigamente.. Os argumentos usados para
a existência de Deus mudam de caráter à medida que o tempo passa.
No início, eram argumentos intelectuais rígidos, que incorporavam
certas idéias errôneas bem definidas. Quando chegamos aos tempos
modernos, elas se tornam menos respeitadas intelectualmente e cada
vez mais afetadas por um tipo de moralização vaga.

O Argumento da Prova Teológica da Existência de Deus

O próximo passo neste processo nos leva ao argumento da
Prova teológica da existência de Deus.
Todos conhecem o argumento do plano divino: tudo no mundo é feito para que consigamos viver nele, e, se o mundo fosse mesmo algum dia um pouquinho diferente, não conseguiríamos habitá-lo. Esse é o argumento da prova da existência
de Deus. Às vezes ele toma uma forma bastante curiosa; por exemplo,
argumenta-se que as lebres têm cauda branca para serem alvo fácil dos
caçadores. Não sei o que as lebres achariam desse destino. Trata-se de
um argumento realmente fácil de parodiar. Todos os senhores conhecem
a observação de Voltaire de que o nariz obviamente foi desenhado
de modo que pudesse segurar os óculos. Esse tipo de paródia revelou-
se nem de perto estar tão distante da verdade quanto podia
parecer no século XVIII, porque desde a época de Darwin
compreendemos de um modo muito melhor por que as criaturas vivas
se adaptam a seu ambiente. Não que o ambiente seja feito para se
adequar a elas, mas elas é que se modificam para adequar-se a ele,
e essa é a base da adaptação. Não existe evidência de plano divino
em relação a isso.
Quando se examina esse argumento teológico da prova da existência
de Deus, parece surpreendente que as pessoas possam acreditar que este
mundo, com todas as coisas que ele contem, com todos os seus defeitos,
deve ser o melhor mundo que a onipotência e a onisciência conseguiram
produzir em milhões de anos. Eu realmente não consigo acreditar nisso.
Os senhores acham que, se tivessem a onipotência e a onisciência e milhões
de anos para aperfeiçoar seu mundo, não seriam capazes de produzir
nada melhor do que a Ku-Klux-Klan ou os fascistas? Ademais,
quando se aceitam as leis comuns da ciência, é necessário supor que
a vida humana e a vida em geral neste planeta morrerão a seu tempo:
trata-se de um estágio de decadência do sistema solar. Em um certo
estágio dessa decadência, obtem-se o tipo de condições de temperatura,
e assim por diante, que são adequadas ao protoplasma, e haverá vida,
durante breve tempo, na vida do sistema solar. Vê-se na Lua o tipo de
coisa que s terra tem: algo morto, frio e sem vida.
Disseram-me que esse tipo de visão é deprimente e, as pessoas
às vezes afirmam que, se acreditassem nisso, não seriam capazes
de continuar vivendo. Não acreditem nisso; não passa de tolice.
Ninguém realmente se preocupa com o que irá acontecer daqui a milhões
de anos. Mesmo que achem que se preocupam muito com isso,
na verdade só estão se enganando. A preocupação delas diz respeito
a algo muito mais mundano – talvez mesmo apenas com a má digestão.
Na verdade, ninguém de fato fica realmente infeliz por pensar que
algo de ruim vai acontecer com este mundo daqui a milhões de anos.
Assim, apesar de obviamente ser uma visão fúnebre supor que a
Vida morrerá – pelo menos suponho que possamos fazer essa afirmação,
apesar de às vezes eu achar que isso é quase um consolo, quando vejo
as coisas que as pessoas fazem com a própria vida –, isso não é tão
terrível a ponto de transformar a vida em um tormento. Essa questão
simplesmente faz com que a gente volte a atenção para outras coisas.

A obra completa dos pensamentos do escritor Prêmio Nobel de
Literatura, professor universitário e livre pensador acerca de religião e
sobre se “Deus existe” e as verdadeiras convicções de Bertrand
Russel podem se encontradas em seus livros também em reedições
recentes. Em Ensaios Céticos, Russel argumenta que devemos estar
preparados para reconhecer a incerteza de nossa crenças. Quando
especialistas em determinado campo não concordam, nos diz ele: é
melhor suspender o julgamento.

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Um comentário:

heilen disse...

Caro amigo, as afirmações desse senhor são muito vazia e nadaa acrescenta à indagação da existencia divina. A verdade é que não se pode provar a existencia de Deus, mas também não se pode provar o contrario. Falar da k k k é um erro já que as religiões falam que o ser humano tem livre arbitrio e que a puninção virá um dia para os maus. Mas a verdade é que embora eu não encontre argumentos para provar o cristianismo que é uma religião contraditória, não posso afirmar o mesmo em relação a Deus ou a algum tipo de divindade, já que, a surgimento da vida num universo tão hostil, é em si mesmo um milagre, basta olharmos para nossos planetas vizinhos todos sem vida.